O choro da viúva

by - janeiro 14, 2018




O choro da viúva





por Ivandro Sigaval















Mar de rosas era a vidada Suhura antes de completar 14 anos de idade,como a maioria das meninas da sua faixa etária, ela sonhava com um futuro risonho, se formar em Direito para defender a dignidade das pessoas que carecem dos serviços jurídicos, construir um lar com o príncipe encantado quelhe assaltavaos sonhos no repouso do mundo. Suhura era uma menina linda, meiga, simpática e inteligente, fora melhor aluna da escola que frequentava três anos consecutivos, orgulho dos professores que a lecionavam. A sua beleza acorrentava os olhos masculinos, deixando a imaginação ganhar asas nos mesmos.
Os planos de vida da Suhura estavam bem delineados, não havendo espaço para distrações que podessem hipotecar seu futuro, porém esquecera que ainda vivia debaixo das asas dos seus progenitores que traçavam seu destino á passos largos, se esquecerando ou ignorando que ela era a proprietária legítima dos seus anseios.Infelizmente os sonhos da Suhura se transformavam paulatinamente em pesadelos sem ela se aperceber.
- Temos que esposar nossa filha, já está na idade de formar lar. - direcionara essas palavras senhor Chico para sua esposa.
- Temos que deixa-lá definir seus horizontes, ainda é cedo para se casar. - refutava a ideia do marido dona Zainabo.
- Cedo é o tempo do relógio, corremos o risco de despertar tarde e nesse momento quem sabe ela estará grávida, e podemos perder uma boa recompensa. As mulheres virgens são mais caras do que água no deserto.
- Não digas disparates homem, de onde tiras essas palavras azedas?
- Da vida, ela é cruel mas a verdade é uma, ela nos ensina a sua importância á pontapés e murros.
Dona Zainabo boceja fatigada pelo discurso amargo marido, enquanto isso Suhuracruzava o quarto dos progenitores e num acto de total desrespeito pôs-se a escutar atenciosamentepor detrás da porta o diálogo dos pais que parecia uma balbúrdia do que uma conversa no seu verdadeiro sentido.
- Mas pensou bom em esposar nossa filha?
- Mas que pergunta é essa mulher, nunca ouviste a frase que diz: "a riqueza do homem está na sua descendência?"... Não se esqueça que enriqueci teu pai com o meu suor gasto nas terras do rand.
Dona Zainabo olhou fixamente para o marido com olhos carregados do desgosto, pois as palavras do mesmo lhe revelara que o marido ainda guardava remorsos do passado, como se dona Zainabo fosse um fardo para sua vida.
Do lado de fora do ninho dos cônjuges, Suhura permanecia atenciosa procurando entender o conteúdo fulcral dos seus pais. Seus pensamentos começavam a pressagiar o que ia acontecer e seu coração estava acelerando os passos dos batimentos cardíacos como se estivesse numa maratona de vida ou morte.E o diálogo continuava no interior do ninho amoroso, tornando-se cada vez mais tensa e as nuvens da discórdia começavam a pigar algumas gotículas de tristeza no semblante da dona Zainabo.
- Queres me matar do desgosto?
- Não...
- Então o que queres?
- Garantir o futuro da nossa filha e a descendência da nossa família.
Era incrível como o senhor Francisco tratava dum assunto delicado como aquele, esposar sua filha menor de idade com tanta banalidade e leviandade. As suas palavras revelavam o monstro camuflado nas afeições angelicais do seu rosto. Se ele tivesse nascido nas terras que respiram o desenvolvimento económico, com certeza senhor Francisco teria sido resgatado do anonimato, ser polido pelos profissionais do mundo artístico e quem sabe teria se tornado uma estrela da música, cinema, mídia, literatura mundialmente famosa, porém nasceu numa terra onde a palavra desenvolvimento ainda é uma utopia. O desenvolvimento da terra onde o senhor Francisco nasceu ainda estava preso aos dogmas ancestrais, esposar as filhas para receber o galardão do prestígio social, os bois que derivam do lobolo.
Em soluços chamando a tempestade de nome lágrimas, dona Zainabo estava num canto qualquer do seu ninho remexendo as suas capulanas que lhe traziam nostalgia do tempo roubado pelo casamento, e as palavras ganharam vida na sua boca:
- Mas ela ainda é criança para se casar.
- O lar vai-lhe adultecer.- Sairam duras e sem maquilhagem as palavras da boca do senhor Francisco ferindo a sensibilidade da sua amada.
Suhura sentiu o peso dos pecados do mundo nas costas, seus pés perderam-se no vazio das incertezas. Olhou para as paredes que sustentavam a casa dos pais e que era dela também, pois na sua vida não tinha conhecido um outro para além daquele; as lágrimas começaram a inundar seu rosto formando uma cascata que desaguava na sua blusa cor do sol poente, enquanto isso as paredes passavam sua história de vida desde a primeira vez que chegou pequenina com o tamanho de uma semente de esperança coberta pelo manto caloroso dos braços do pai, que hoje a condena para outros horizontes. Os sabores e dissabores que temperam seu crescimento voltavam em forma de memórias agradáveis que hoje lhe tornaram mulher para casar aos olhos do pai.
De semblante murcho e gotejando a tristeza, levantou-se do seu silencioso desalento e foi se refugiar no calor solitário do seu quarto. E as palavras do pai lhe perturbavam a consciência: - o lar vai-lhe adultecer. As lágrimas intensificaram-se no seu rosto começando a afogar a almofada na qual estava deitada sobre ela. As ondas da incerteza ganharam dúvida na sua mente brilhante, pensou:
- Vou ter que deixar os estudos, como será minha vida pela frente? Será que vão me transformar numa escrava doméstica?
Dúvidas e mais dúvidas nasciam na mente grávida de incertezas da Suhura. Apeteceu-lhe escrever sua tristeza, pegou no seu fiel confidente apelidado diário para arquivar sua recente desilusão, porém o diário já não tinha folhas brancas por poluir, pegou numa A4 e transmitiu sua tristeza para folha:
Escrevo  traços de sentimentos, laços de tormentos retratados em momentos redardados dos acontecimentos marcados em meus braços.
Tento não pensar no que sinto. Odeio sentimentos.
Mantenho-me ocupada, vivo um dia de cada vez e o que acontecer aconteceu. Mas o facto de eu não querer senti-los ou lidar com eles, não quer dizer que eles não lá estejam…
Sinceramente, acho que nem sei o que sinto. Sinto-me perdida e vazia. Sinto que me tiraram tudo e me puseram num mundo paralelo com o mesmo corpo mas outra alma. Sinto que estou a correr no vazio, à procura de algo que não existe com forças e esperanças há muito perdidas.
Sinto ódio, pelo mundo, pelas pessoas, pelos sentimentos, por tudo.
Acho que… achava que não conseguiria aguentar isto, a verdade é que não tenho de achar ou tentar, apenas tenho de o fazer. A verdade é que só quando passamos por algo que sempre pensámos não conseguir superar, é que percebemos que é a nossa essência: superar e aguentar tudo até ao final.
Suhura tranformou sua revolta em conformidade perante aquela calamidade, a humidade do seu humilde leito pouco a encomodava e aos poucos ela acomodava se mesmo com dor no peito.
Ela sabia que mas nada podia ser feito a não ser esperar o efeito eleito da decisão de seu pai.


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