O choro da viúva
O choro da
viúva
por Ivandro Sigaval
Mar de rosas era
a vidada Suhura antes de completar 14 anos de idade,como a maioria das meninas
da sua faixa etária, ela sonhava com um futuro risonho, se formar em Direito
para defender a dignidade das pessoas que carecem dos serviços jurídicos,
construir um lar com o príncipe encantado quelhe assaltavaos sonhos no repouso
do mundo. Suhura era uma menina linda, meiga, simpática e inteligente, fora
melhor aluna da escola que frequentava três anos consecutivos, orgulho dos
professores que a lecionavam. A sua beleza acorrentava os olhos masculinos,
deixando a imaginação ganhar asas nos mesmos.
Os planos de
vida da Suhura estavam bem delineados, não havendo espaço para distrações que
podessem hipotecar seu futuro, porém esquecera que ainda vivia debaixo das asas
dos seus progenitores que traçavam seu destino á passos largos, se esquecerando
ou ignorando que ela era a proprietária legítima dos seus anseios.Infelizmente
os sonhos da Suhura se transformavam paulatinamente em pesadelos sem ela se
aperceber.
- Temos que
esposar nossa filha, já está na idade de formar lar. - direcionara essas
palavras senhor Chico para sua esposa.
- Temos que
deixa-lá definir seus horizontes, ainda é cedo para se casar. - refutava a
ideia do marido dona Zainabo.
- Cedo é o tempo
do relógio, corremos o risco de despertar tarde e nesse momento quem sabe ela
estará grávida, e podemos perder uma boa recompensa. As mulheres virgens são
mais caras do que água no deserto.
- Não digas
disparates homem, de onde tiras essas palavras azedas?
- Da vida, ela é
cruel mas a verdade é uma, ela nos ensina a sua importância á pontapés e
murros.
Dona Zainabo
boceja fatigada pelo discurso amargo marido, enquanto isso Suhuracruzava o
quarto dos progenitores e num acto de total desrespeito pôs-se a escutar
atenciosamentepor detrás da porta o diálogo dos pais que parecia uma balbúrdia
do que uma conversa no seu verdadeiro sentido.
- Mas pensou bom
em esposar nossa filha?
- Mas que
pergunta é essa mulher, nunca ouviste a frase que diz: "a riqueza do homem
está na sua descendência?"... Não se esqueça que enriqueci teu pai com o
meu suor gasto nas terras do rand.
Dona Zainabo
olhou fixamente para o marido com olhos carregados do desgosto, pois as
palavras do mesmo lhe revelara que o marido ainda guardava remorsos do passado,
como se dona Zainabo fosse um fardo para sua vida.
Do lado de fora
do ninho dos cônjuges, Suhura permanecia atenciosa procurando entender o
conteúdo fulcral dos seus pais. Seus pensamentos começavam a pressagiar o que
ia acontecer e seu coração estava acelerando os passos dos batimentos cardíacos
como se estivesse numa maratona de vida ou morte.E o diálogo continuava no
interior do ninho amoroso, tornando-se cada vez mais tensa e as nuvens da
discórdia começavam a pigar algumas gotículas de tristeza no semblante da dona
Zainabo.
- Queres me
matar do desgosto?
- Não...
- Então o que
queres?
- Garantir o
futuro da nossa filha e a descendência da nossa família.
Era incrível
como o senhor Francisco tratava dum assunto delicado como aquele, esposar sua
filha menor de idade com tanta banalidade e leviandade. As suas palavras
revelavam o monstro camuflado nas afeições angelicais do seu rosto. Se ele
tivesse nascido nas terras que respiram o desenvolvimento económico, com
certeza senhor Francisco teria sido resgatado do anonimato, ser polido pelos
profissionais do mundo artístico e quem sabe teria se tornado uma estrela da
música, cinema, mídia, literatura mundialmente famosa, porém nasceu numa terra
onde a palavra desenvolvimento ainda é uma utopia. O desenvolvimento da terra
onde o senhor Francisco nasceu ainda estava preso aos dogmas ancestrais,
esposar as filhas para receber o galardão do prestígio social, os bois que
derivam do lobolo.
Em soluços
chamando a tempestade de nome lágrimas, dona Zainabo estava num canto qualquer
do seu ninho remexendo as suas capulanas que lhe traziam nostalgia do tempo
roubado pelo casamento, e as palavras ganharam vida na sua boca:
- Mas ela ainda
é criança para se casar.
- O lar vai-lhe
adultecer.- Sairam duras e sem maquilhagem as palavras da boca do senhor
Francisco ferindo a sensibilidade da sua amada.
Suhura sentiu o
peso dos pecados do mundo nas costas, seus pés perderam-se no vazio das
incertezas. Olhou para as paredes que sustentavam a casa dos pais e que era
dela também, pois na sua vida não tinha conhecido um outro para além daquele;
as lágrimas começaram a inundar seu rosto formando uma cascata que desaguava na
sua blusa cor do sol poente, enquanto isso as paredes passavam sua história de
vida desde a primeira vez que chegou pequenina com o tamanho de uma semente de
esperança coberta pelo manto caloroso dos braços do pai, que hoje a condena
para outros horizontes. Os sabores e dissabores que temperam seu crescimento
voltavam em forma de memórias agradáveis que hoje lhe tornaram mulher para
casar aos olhos do pai.
De semblante
murcho e gotejando a tristeza, levantou-se do seu silencioso desalento e foi se
refugiar no calor solitário do seu quarto. E as palavras do pai lhe perturbavam
a consciência: - o lar vai-lhe adultecer. As lágrimas intensificaram-se
no seu rosto começando a afogar a almofada na qual estava deitada sobre ela. As
ondas da incerteza ganharam dúvida na sua mente brilhante, pensou:
- Vou ter que
deixar os estudos, como será minha vida pela frente? Será que vão me
transformar numa escrava doméstica?
Dúvidas e mais
dúvidas nasciam na mente grávida de incertezas da Suhura. Apeteceu-lhe escrever
sua tristeza, pegou no seu fiel confidente apelidado diário para arquivar sua
recente desilusão, porém o diário já não tinha folhas brancas por poluir, pegou
numa A4 e transmitiu sua tristeza para folha:
Escrevo traços de sentimentos, laços de tormentos
retratados em momentos redardados dos acontecimentos marcados em meus braços.
Tento não pensar
no que sinto. Odeio sentimentos.
Mantenho-me
ocupada, vivo um dia de cada vez e o que acontecer aconteceu. Mas o facto de eu
não querer senti-los ou lidar com eles, não quer dizer que eles não lá estejam…
Sinceramente,
acho que nem sei o que sinto. Sinto-me perdida e vazia. Sinto que me tiraram
tudo e me puseram num mundo paralelo com o mesmo corpo mas outra alma. Sinto
que estou a correr no vazio, à procura de algo que não existe com forças e
esperanças há muito perdidas.
Sinto ódio, pelo
mundo, pelas pessoas, pelos sentimentos, por tudo.
Acho que… achava
que não conseguiria aguentar isto, a verdade é que não tenho de achar ou
tentar, apenas tenho de o fazer. A verdade é que só quando passamos por algo
que sempre pensámos não conseguir superar, é que percebemos que é a nossa
essência: superar e aguentar tudo até ao final.
Suhura
tranformou sua revolta em conformidade perante aquela calamidade, a humidade do
seu humilde leito pouco a encomodava e aos poucos ela acomodava se mesmo com dor
no peito.
Ela sabia que
mas nada podia ser feito a não ser esperar o efeito eleito da decisão de seu
pai.
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