Violência e Igualidade de Género
Eu sou Ivandro Oliveira
Sigaval, Jovem de dezoito (18) anos de Idade, nascido ao quinze (15) de Janeiro
de 1999, no distrito de Quelimane, província da Zambézia, de nacionalidade Moçambicana.
Moro actualmente na Cidade de Maputo, Bairro Tchumene, condomínio Jessibela
(Próximo a EN-4), casa número dois (2).
Cell:
+258 84 744 173 0
A
Igualdade de Género é um conceito que deve começar a ser olhado, desde as partículas
mais pequenas e as coisas mais ínfimas, Bem como a Violência, que é o tema que preferi me aprofundar, deve começar a
ser criticada a partir dos próprios familiares! Sou apologista de que toda a
base, quer seja por parte do rapaz, ou mesmo da rapariga, é tida em casa, no
seio familiar. Convido-vos desde já, a viver a minha história,
um caso real e não fictício, original e não imaginário.
Cresci numa família
humilde e com princípios ultrapassados (isto era o que eu pensava), um autêntico
engano. Numa sociedade em que a mulher não tinha voz, aliás tinha! A voz dela
estava na panela e só podia conversar com as paredes da cozinha. Deve ser por
isso, que por vezes encontrava a minha AvóMitetecapa, falando ou gargalhando
sozinha, mas, negava-me a crer que a minha vovó estivesse a "bater
bapo" com ela mesma apenas, preferia acreditar que sorria ela, com a
feijoada que gostava de preparar ou a sua famosa nipipa que muito gostava de degustar.
Aqui em casa, tudo era de"pernas para o ar", erro meu! Aqui em casa,
nada tinha pernas, era tudo com deficiência! Um quartel sem general em que
mandava apenas um general sem quartel. E sobre inclusão!? Ninguém se quer pensava
em murmurar, com medo do cota Siga Siga (nome carinhoso com que chamávamos o
meu avô), nervoso o esmurrar.
Desde muito tempo
(quando ainda criança), vi a minha avó mandar os rapazes jogar a bola e as
meninas lavar a loiça.Sim! Vi desde lá, as raparigas fazerem trabalhos duros e
difíceis, enquanto os rapazes, apenas se sentavam e esticavam as pernas a mesa,
como os verdeiros "Pisa Pagas", ou simplesmente Boss’s. Abusado, era
o meu primo Júlio! Juju, como o preferíamos chamar, que comia e chamava as suas
irmãs numa tonalidade não muito agradável e desprezível,
- "Koniwe venha tirar o prato"! Juju era tão abusado que quando
tomasse banho, as suas irmãs é que tinham que limpar a casa de banho. Era uma
triste realidade… Triste, desde quando comecei a perceber que aquilo era errado
(isto, já muito tarde), próximo a minha adolescência. Não aguentava mais ver o
riso dolorido da minha avó por não poder opinar, deve ser por isso que a vovó
Mitetecapa era toda sem dentes, os dentes, esqueceram-se faz tempo no seu silêncio,
que não se ouvia falar. A minha avó perdeu os dentes, por não poder gritar que
estava cansada dos maus tratos por parte do seu marido. Ele era o dono do
pedaço e ela, um simples pedaço sem dono. Sim! O meu avô era o dono da
Quebrada, e adivinhe quem era a Quebrada!? A minha Avó Mitetecapa.
Chega! Gritei eu por
minha avó. Decidi fazer direito e especializar-me em advocacia, fazer direito e
não mais alcatruzado, era tudo o que podia. E quer saber? Fiz por conta própria,
não precisei de ir a escola, a minha casa já era uma, lembro-me pelas lições
que vivia. Avovó Mitetecapa foi a minha primeira cliente e o preço que pagou-me
por tal... Digo-vos que não tem preço. Aquilo que era outrora sem valor passou,
a custar-me um valor de infinitos trocos. Pela primeira vez numa vida muito
sofrida, a minha avó, sorriu de verdade (deu para ver pelas gengivas todas que mostrou).
Após ter participado em
programas de rádio, decidi ser um Brada
ElePorElas e fiz parte de várias organizaçõesda sociedade civil que
defendem a causa das mulheres. Hoje, sou fundador de um movimento denominado Criticar com Arte, e com este tenho
andado de casa em casa, ao fim de por meio de poesias, crónicas, música,
pintura e qualquer outro talento, difundir a informação sobre a igualdade de género,
casamentos prematuros e vários outros temas. Actualmente, o retorno do projecto
tem sido grande, sendo que por causa deste movimento temos visto vidas serem transformadas,
pais mudam a sua forma de pensar. No seio da família, fiz uma gigante diferença
e tenho feito na sociedade e na escola, através de palestras e grupos de
conversa, a fim de que esta conceção antiquada seja mudada! Actualmente faço
parte do grupo dos pequenos jornalistas da Rede da Criança e tenho lutado a
mesma luta que as Raparigas, para que os seus direitos sejam respeitados na
minha comunidade, no meu distrito e o meu sonho é que o mundo todo, saiba que
temos direitos iguais, que o homem pode sim entrar na cozinha, e a menina pode
ir a pesca sem nenhum preconceito.
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